terça-feira, 2 de novembro de 2010

Anestesiado.




Meu corpo,
Ainda anestesiado do querer,
Havia acostumado a mover sem seus olhos,
Sem o cheiro de seu corpo,
Sem o toque nos cabelos,
Sem os sons, sem o jeito, sem tudo o seu,
Havia fotografado noites, sonhos, medos...
E os colocado num livro escuro e sujo,
Escondido na estante empoeirada do passado...
E lá no alto, calado vozes e choro,
Calado os riscos e traços do seu rosto,
Do nós desfeito, despedaçado em pétalas pratas,
Em finos laços corroidos
Adormecendo em vultos e quereres,
Em espaços entre abraços,
O livro se revolvia, rasgando meu peito,
Gritando em silêncio,
Por alguém que o tomasse entre os dedos,
E, lê-se-O... Se... O... meios começos de um fim.
Enquanto eu, anestesiado nos cantos de mim,
Em insano delírio de martinis e rock,
Não ouvi, ainda que fizesse ruídos ensurdecedores,
O baque do livro caído e caindo no chão...
Só o vi, quando nele tropecei...
Ensultando-o em bemol's, tomei-o e pressionei-o,
Querendo de repente, transcendê-lo num toque,
rompê-lo, queimá-lo...
Mas incoerente de mim que me faço,
Passei os dedos no seu rosto,
Traçando meio de lê-lo entre pó e dor,
Entitulado de nós,
Assinado por mim,
Abri-o sentindo-o se derramando, em prantos,
Nos pedaços machucados de passado,
Apressados meus olhos correram entre palavras e cantos,
Li a mim,
Ainda anestesiado,
Ainda bêbado,
Ainda cansado...
E sem querer,
No passar das páginas, do nós, de tudo,
Adormeci...




Nos meus sonhos ainda houve medo,
Mas ainda neles houve sentidos,
Houve quereres,
Houve amores,
Ouves!
Ainda neles estavam seus olhos...
Os mesmos que, sem querer,
Anestesiaram meu corpo,
Calaram meu querer,
Sumiram com meus quadros,
Pintados de giz e cifrado de nós...
...




Quando despertei,
Embebida de vazio,
De um caos lido no anoitecer,
Ali estavam seus olhos,
Fotografados nos meus,
Dizendo terem me visto,
E terem,
sentidos...
sentires...
saudade.



PS: "0 apego não quer ir embora, diaxo, ele tem que querer!" Maria Gadú

5 enigmas decifrados:

  1. Como sempre perfeito! E que "nós" persistente em sua vida. Queria a metade de sua capacidade de sentir...

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  2. Nada sou perante a grandeza das palavras aí escritas, decifradas...
    Senti tudo ainda que anestesiado!
    Lindo!
    Bjo

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  3. Camila... Tens essa capacidade de sentir, tanto quanto eu...

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  4. Querida Fernanda, eu sinto! Eu sinto não só a capacidade de sentir, mas de amar, de querer, e de sentir falta...Será que falta sossega sentindo? Ou será que o "sentindo" é que desassosega a alma para sentir o não sentido? Ai preciso recordar...preciso sentir...Como aquele cheiro daqueles dias em que só o "nós" sabe sentir...

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Enigmas,
Decifras,
Em ti,
Pra ti,
O mim escondido em cada
palavra,
sentido,
sentindo...
Aqui.