
Um pingo de chuva lhe caiu sobre o rosto,
Diferente do que esperei,
Simplesmente o deixou seguir,
Como se deixasse ser quadro,
E aquele pingo de chuva, um pincel de cores e tons a se mover,
Tão livre, tão cheio de querer...
Observei com cuidado e curiosidade...
Aquele pingo, entregue aos contornos, deixou-se ir...
Passando pelo tempo, pelo jeito, pelos cantos, pelo ser...
Aquele pingo, deixou-se mover pelo som de todos respiros,
Por instantes, quis também mover-me com ele,
Só por sentir,
Só por querer,
Só por deixar ser...
Abandono de tudo,
Encontro de corpo, de versos, de estudo...
E como se pudesse , de repente, habitar naquele pingo de chuva,
Risquei aquele rosto feito pincel colorindo um quadro,
Roubando seus sentidos todos,
Misturando sons, cheiro, medos, verbo e sonhos,
Toquei seus cílios produzindo bemol’s, escurecidos pelo rímel,
Titubeei perto daqueles olhos de céu,
Anoitecido entre astros flutuantes,
Quis que o tempo se rompesse,
Que, de repente, aquilo lhe causasse incômodo,
E, então, seus dedos me desfizessem...
Só por sentir,
Só por querer,
Aquele ultimo ver,
Olhos de céu contornados de querer...
Desse modo, simplesmente deixei-me ir...
Seguindo...
A lei a qual me submeti sendo pingo de chuva,
Não me fez refém daqueles olhos,
Não quis neles me prender,
Deixando –me livre, mesmo sem outros motivos pra viver,
Entristeci-me...
Seguindo...
Deixei-me ser,
Encostei-me naquele rosto, como se de repente,
Pudesse vir a rompê-lo,
Invadi-lo e ver por dentro,
O outro lado do espelho,
Só por sentir,
Só por querer,
Só pra saber...
Mistérios de mulher...
(...)
Um sopro quieto do vento roçou meus cabelos de tempestade,
Estremeci...
Meus sentidos avisavam que logo aquele rosto,
Que meu corpo vestido de vapor líquido tocou,
Que todos os traços contornados,
Que todos os abraços,
Já não seriam meus,
Já não seriamos nós,
E eu... já não... seu...
...
Daquele passeio,
Restavam –me poucos minutos,
Daquele rosto,
Restavam-me tudo...
Não quero deixa-lo,
Não quero dividi-lo com nenhum outro,
Tive medo...
Um trovão ressoou por perto,
Cantando o fim desse meu encontro,
Desse meu ser,
Desse meu querer,
Devaneio que me fez,
Que me fiz...
Num ultimo respiro,
Pousei inquieto nos lábios seus,
Como um pássaro sobre fios de tensão,
Provando de seu calor,
Sentindo-me invadido por mil elétrons,
Corrente aprisionando tudo o que sou,
Foi então que percebi,
Seus lábios entreabertos me bebiam,
E quando outros pingos de chuva bateram à porta,
Já não podiam te ter,
Já não podiam ser,
Já não podiam sentir,
Porque eu,
Dentro de ti,
Habitei todos os espaços,
Todos os pedaços,
Desvendando todos seus mistérios,
Todo seu querer,
Todos os sentidos,
Só por sentir,
Só por sabor,
Só por que,
Te amei,
Mulher.
PS: “E, assim, no teu gosto eu fui chuva, jeito bom de se deixar viver” (Quando fui chuva – Maria Gadú e Luiz Kiari
Lindo cm sempre! inspirações nas overdoses de Maria Gadú? hahaha' amo esse seu blog! :)
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